Artur Paredes foi um guitarrista genial, «o génio revolucionário da guitarra coimbrã». Muitos julgarão que a guitarra de Coimbra tenha começado com ele, mas não é bem assim. Seu pai - Gonçalo Rodrigues Paredes, que se formou na Universidade em 1912, - e seu tio, - Manuel Paredes - foram seus antecessores na arte difícil de tocar guitarra.
Artur Paredes foi, assim, o continuador de uma tradição familiar. Tradição familiar, aliás, cujo testemunho passou a seu filho - Carlos Paredes - outro genial guitarrista. Segundo Nelson Correia Borges, Artur Paredes foi o grande fenómeno da guitarra de Coimbra, afastando-a definitivamente da sua irmã de Lisboa, introduzindo-lhe características que melhor se coadunavam com o estilo coimbrão, designadamente o formato da caixa harmónica.
Desenvolveu uma técnica insuperável de que foi herdeiro seu filho, Carlos Paredes. Introduziu nas suas «variações» a música popular, com predominância da música «futrica» de Coimbra, com extraordinário virtuosismo. Ninguém como ele toca a «Balada de Coimbra», que passou a encerrar todas as serenatas.
Paredes nunca cursou a Universidade, embora a Academia o considerasse como um membro seu. De sua profissão empregado bancário, Artur Paredes participou em muitos saraus da Tuna e do Orfeão, até ir residir para Lisboa em 1934. Em Agosto e Setembro de 1925, Artur Paredes deslocou-se ao Brasil, como «artista adjunto» da Tuna Académica. Mas para que todos os astros se conjugassem para produzir a geração de oiro do fado de Coimbra, Artur Paredes foi contemporâneo de cantores e autores como Edmundo Bettencourt, António Menano, Paradela de Oliveira, Lucas Junot e Armando Goes. Artur Paredes, como já foi referido, não se limitou a ser um genial guitarrista e um excelente compositor - ele deu à guitarra coimbrã novas sonoridades, através de uma investigação persistente e sistemática, apoiada por uma outra geração de grandes artistas na construção de guitarras, a família Grácio. Sobretudo com Edmundo Bettencourt (que, segundo o Luiz Goes me confessou, Paredes preferia a qualquer um dos outros cantores da sua geração), Artur Paredes teve intensa colaboração, aliás registada em discos admiráveis, embora gravados com as condições técnicas disponíveis nos anos 20 e 30. E que, Artur Paredes, não só reinventou e renovou a guitarra coimbrã, não só criou admiráveis composições, como também reconstruiu a arte de acompanhar as vozes dos cantores de forma sublime.
Os seus acompanhamentos, as introduções aos fados, a dinâmica, o clima, as atmosferas musicais com que envolvia o apoio instrumental às vozes dos cantores, constituíram uma extraordinária mais valia, que aliás fez escola em guitarristas que lhe sucederam, como foi o caso de António Brojo e António Portugal. Uma noite, numa república de Coimbra (já não me lembro qual, nem do ano, mas terá sido em finais dos anos 50) tive a honra de assistir e de participar, tocando guitarra, numa sessão única e ímpar: Artur Paredes, acompanhado de seu filho Carlos Paredes, e do seu viola de muitos anos, o excelente Arménio Silva. Foi um deslumbramento! Mas foi, também, a demonstração de que o Génio não gostava de repartir ou partilhar a sua arte com mais ninguém, mesmo que se tratasse do seu filho Carlos, à altura já um genial guitarrista. A verdade é que, nessa noite, Carlos Paredes se limitou a acompanhar o seu pai, sem direito a exibir o seu virtuosismo...
José Niza