Os Da Vinci navegam agora entre livros, partituras e jardinagem


Se recuarmos ao final dos anos 80, os Da Vinci serão certamente lembrados como a banda que levou Portugal a acreditar que poderia vencer a Eurovisão, tanto pelo caminho na pop moderna que acabavam de trilhar, como pelo estilo muito próprio que adoptavam nos seus espectáculos.

O chapéu que a cantora Iei-Or (pseudónimo de Maria Manuela Neves) usava durante as actuações é hoje substituído pelo guarda-sol que segura, à beira da piscina. Pedro Luís Neves (compositor, produtor, teclados e vozes) está hoje também muito mais discreto em relação aos tempos de indumentárias mais arrojadas com que se apresentava em palco e nos telediscos de há 30 anos.

A conhecida dupla dos Da Vinci abandonou as luzes e os palcos para abraçar uma vida mais calma, no refúgio de uma casa em Palmela. “Não tínhamos aqui nada. Fomos nós que fizemos tudo. É o nosso sossego e o de quem cá vem”, confessa Iei-Or. Se na década de 80 a banda portuguesa tinha uma vida agitada - em grande parte por causa de uma canção que se tornou omnipresente -, hoje o casal fundador da banda vive mais resguardado da vida pública. Apesar disso, Iei e Pedro Luís não abandonaram as áreas criativas. Ela acaba de editar um livro; ele escreve música.

O ano de 1989 é o da grande viragem para os Da Vinci. A banda, que já tinha dois álbuns editados, foi convidada a participar no Festival da Canção RTP. O tema Conquistador acabou por ser a música vencedora, e, por isso, a escolhida para representar Portugal na Eurovisão. “Na altura, até queriam que mudássemos a canção de nome, para Descobridor…”, revela Pedro Luís Neves. “Achavam que era mais politicamente correcto.” Para Iei e Pedro Luís, a letra da canção era um jogo de palavras que contava a História de Portugal. “Foi o que nós fomos, nós e os espanhóis, e depois outros… E a História foi o que nos trouxe até aqui”, explica a cantora.

E foi precisamente aquela canção que levou os Da Vinci ao primeiro lugar da tabela, e a conquistar os portugueses. A pop-rock futurista dos Da Vinci dava-se a conhecer num Portugal ainda marcado pelo pop-rock vanguardista de bandas como os GNR ou os Sétima Legião, insuflando a (tradicional) esperança dos portugueses na primeira vitória no festival da Eurovisão, que nesse ano se realizou na Suíça.

No entanto, a expectativa da banda era mais moderada: “Quando lá chegámos, sentimos diferença no tratamento. Portugal não estava tão na moda como está agora; nas recepções encaminhavam-nos sempre para a mesa do canto”. Em pleno ano da queda do Muro de Berlim, a Jugoslávia acabaria por levar o troféu para casa. Iei-Or afirma que “a Eurovisão sempre foi um concurso muito político”.

Contra todas as previsões que se geraram em Portugal, os Da Vinci acabaram por conquistar uma modesta posição no meio da tabela. Receberam apenas 39 pontos, ficando no 16.º lugar. Apesar do resultado, a banda celebrizou-se com uma canção que ainda se faz ouvir. “Ainda hoje nos sentimos acarinhados. É engraçado porque o fenómeno não cessa”, revela Iei. Para a cantora, “a letra não é ‘sazonal’, não passa de moda; fala da genética da nossa História, e as pessoas gostam disso”.

Sobre a participação de Portugal na Eurovisão deste ano, Iei e Pedro Luís consideram que ganhar “foi mais do que justo”. Amar pelos dois, interpretada por Salvador Sobral, “é uma das músicas mais bonitas que a RTP levou ao festival”. Os dois ex-Da Vinci defendem que a canção venceu o concurso porque “as pessoas finalmente começaram a votar numa canção boa, consistente, muito bem defendida e interpretada, sem plumas ou lantejoulas”.

Depois de mais de 20 anos no foco das luzes, e na estrada em tournées, a dupla fundadora dos Da Vinci decidiu procurar o sossego em Palmela, numa pequena quinta rodeada de árvores altas e arbustos, resguardada de olhares alheios.

Iei e Pedro Luís revelam que este afastamento foi fruto de uma opção ponderada. Sentiam-se cansados de tudo o que a fama lhes exigia. Em pleno auge da carreira, surgiam os convites para que os Da Vinci fossem capa de revistas cor-de-rosa, coisa que não lhes agradava. “Chateou-nos a exposição mediática. Queriam entrar na nossa vida privada, que aparecêssemos de fato-de-banho, a fazer poses, ou na piscina. E nós não nos identificávamos com isso; o nosso trabalho era a música!”, sublinham.

Um problema de saúde que afectou Iei também influenciou a decisão de suspender a actividade da banda o afastamento da vida mediática. A última aparição televisiva dos Da Vinci aconteceu em 2007, num programa dos Gato Fedorento. “Eles insistiram muito para estarmos presentes. Mas depois disso, fechámos a loja.”

Ainda que tenham abandonado a vida de músicos, Iei-Or e Pedro Luís continuam dedicados às artes. A cantora publicou recentemente um livro (O Conto da Orbe, Chiado Editora), sob o pseudónimo de M. Jesus Victor. Já o músico apostou na composição de música erudita, género que sempre o fascinou. Pedro Luís também faz gravações de estúdio para outros artistas e para publicidade. Mas é sobretudo ao estudo e composição de música erudita que se tem dedicado.

Iei-Or, que se assume como “humanista” e “progressista”, descobriu a escrita antes de ter deixado os palcos. “A escrita, para mim, é uma compulsão, sempre foi”, admite. Quando em pequena encontrava um fósforo queimado ou um lápis esquecido pelos primos em cima da mesa da avó, era o melhor pretexto para começar a escrevinhar. “Sempre fiz poesia, mas achava que era só para mim.”

E assim aconteceu também com o romance que editou em Maio deste ano. O livro surgiu como uma pulsão de passar para o papel a força das palavras, numa espécie de ligação natural entre cérebro, caneta, e papel. “Escrevi o livro todo à mão. Depois o Pedro reviu-o e passou-o para o computador.” O pseudónimo surge, novamente, para que Maria Manuela Neves se distancie da personagem Iei-Or, dos Da Vinci, e para que consiga distanciar a cantora da escritora.

Iei já tem outros quatro livros na cabeça, e planeia continuar a nova vida de escritora, aliada, entre outros, à jardinagem, um hobbie que a cantora vê como um trabalho para a vida toda. Cantar, agora, acontece apenas para um grupo restrito de família e amigos.

Quanto aos palcos, os Da Vinci reconhecem que, depois de sete álbuns editados, voltar não está nos seus planos. Mas Iei não fecha totalmente essa hipótese: “Na altura, tínhamos projectado um álbum acústico… até o pusemos em marcha. Mas depois acabou por não resultar”.

Passados 30 anos, a canção Conquistador - tema que chegou à platina; e o álbum ao ouro -, ainda está bem presente na memória de quem a viveu, mas também em muitas gerações seguintes.

Iei-Or e Pedro Luís Neves passam hoje despercebidos das câmaras e dos microfones, mas sentem-se mais dinâmicos do que nunca. E satisfeitos com o actual momento da música portuguesa. “Portugal está a produzir boa música, e recomenda-se!”

https://www.publico.pt/2017/08/19/culturaipsilon/noticia/os-da-vinci-navegam-entre-livros-partituras-e-jardinagem-1782720

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